Fotos: Vittor Sales e Ricardo Stuckert (Divulgação)
O brasileiro ao optar por um nome que não seja da esquerda não o torna um fascista, um antidemocrático. O recado foi dado: o eleitor, médio, cansou de viver com a promessa de que um horizonte melhor haverá de despontar. O que se mostrou meramente quimera. A esquerda, de forma meritória e com o respaldo do voto popular, emplacou governos Lula (1, 2, 3) e até fez sucessão com Dilma Rousseff. Mas como tudo na vida, a imprevisibilidade invariavelmente bate à porta. Tivemos a ascensão de um nome do chamado baixo clero da política nacional que se mostrou como antissistema: Bolsonaro.
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O eleitor, do último domingo, passou uma mensagem bem clara: não quer mais desculpas e, talvez, esteja dando fim a uma era de reprises em um relacionamento que já se encerrou. Cansou de esperar a picanha que não veio; se saturou de ver uma ‘elite intelectual’ dizendo que você, eleitor, não está entendendo direito o que está acontecendo; ou de ser ‘ameaçado’ que se um outro nome (que não o da esquerda) for eleito, benefícios sociais serão retirados da noite para o dia; ou que haverá a supressão de direitos individuais. Da mesma forma, a sociedade está esgotada de ver formadores de opinião (influencers e jornalistas) dizendo que tudo não passa de questão de percepção, e se as coisas estão inflacionadas no supermercado, que se coma ovo então...
A certa superioridade moral, apregoada (de forma velada) pela esquerda, contribuiu para o que as urnas revelaram: um basta à tentativa de direcionar o brasileiro de como ele deve viver, se portar e pensar. A direita soube entender e capitalizar a insatisfação do brasileiro. Muito disso, sem dúvida alguma, de forma oportunista e performática. Mas foi pragmática e assertiva. A esquerda política não se reiventou. Parou no tempo, letárgica, inerte. Na teoria, prega (e muito bem) uma proposta de uma esquerda inclusiva, feminina, da periferia e associada à pauta da diversidade sexual. Mas os rumos e as definições da esquerda (e, no caso, do PT) se dão às portas fechadas por senhores de cabeças brancas e grisalhas.
Em “O Idiota” de Dostoievski, temos o caso de um homem puro que se torna uma espécie de idiota, um cara que não consegue se adaptar em uma sociedade corrompida. O brasileiro acenou, lá atrás, por alguém disruptivo, que optou por uma fala pitoresca, caricata. Agora, o voto de protesto lá de 2018 ganhou outro contorno: uma demonstração de resistência ao chamado establishment, ou seja, à ordem dominante. Difícil dizer o que será e dimensionar o que virá a partir do término da eleição do próximo dia 25, mas a guinada dada pelo eleitor não pode ser vista como uma onda de retrocesso. Democracia é a vontade da maioria (gostemos ou não). Lá atrás, a maioria optou pela esquerda. Agora, é a vez da direita. Os gaúchos, aliás, deixaram isso bem claro.